Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 02, 2018 9:46 am

17º Capítulo - Tendo Observado
Naqueles dias de pelejas mais intensas que, periodicamente, me ocorriam, tinha a estranha sensação de que, o tempo todo, olhos invisíveis me observavam.
Eu não saberia definir aquele estado; por vezes, a impressão de que estava sendo seguido era tão nítida, que chegava a reparar em torno de mim, na esperança de surpreender o incógnito espião.
Falando com D. Modesta a respeito daquela situação inusitada, ela confirmou que com ela vinha acontecendo o mesmo:
— Os espíritos, Inácio, sempre nos acompanham para nos examinar a coerência...
Aqueles que supostamente doutrinamos, em nossas sessões mediúnicas, não saem de todo
esclarecidos; não raro, permanecem ao nosso lado, por tempo mais ou menos indefinido, analisando o nosso comportamento de acordo com as nossas palavras...
Se se convencem da sinceridade com que nos externamos, aceitam a argumentação de que nos valemos no sentido de esclarecê-los; caso contrário, rebelam-se contra nós.
— Mas eu não tenho certeza, Modesta, se é gente viva ou gente morta que está me espreitando...
Você sabe, temos muitos adversários e não são poucas as ameaças que sempre recebo.
— Ora, Inácio disse a companheira, tranquilizando-me -, quem é que teria coragem de fazer algum mal a você, que só tem se preocupado em fazer p Bem?
Não há quem lhe estenda as mãos que se retire com elas vazias...
— Tenho sido contundente em meus artigos contra o Clero...
Os padres me causam maior receio do que os que não acreditam em Deus; escondem muita hipocrisia sob a batina...
Certo, não são todos.
Muitos, ou melhor, raros são apóstolos do Evangelho, mas a maioria ainda lê pela cartilha da “Santa Inquisição”.
Neste aspecto, você tem razão argumentou a estimada irmã -, mas ninguém ousaria enfrentá-lo, pois, afinal de contas, hoje você é nacionalmente conhecido; se alguém o agredisse, iria parar na cadeia.
Tenho comigo que o problema é de ordem espiritual...
— Às vezes redargui fico com medo de pegar uma paranóia qualquer, se é que já não me contagiei...
De tanto lidar com os nossos doentes, temo o desequilíbrio, pois não temos tanta sanidade assim...
Os pacientes do Sanatório, os desafectos da Doutrina e os espíritos obsessores eis a espécie de gente com a qual convivemos no cotidiano.
— Eu também, Inácio, às vezes me pergunto se não serei apenas mais um deles...
Vou lhe contar o que me sucedeu ontem.
Tenho uma vizinha que implica com os mendigos que me procuram em casa.
Você sabe, estou sempre à disposição daqueles que me procuram no Ponto “Dr. Bezerra de Menezes”.
É uma consulta, um medicamento, um agasalho algumas senhoras costuram, cooperando connosco...
Em certos dias, chego a atender quase cinquenta pessoas, sendo que muitas delas são provenientes da zona rural...
A vizinha vive atirando dejectos no meu quintal; ela tem dois pirralhos que já quebraram, a pedradas, diversas das minhas telhas.
Venho tentando contornar.
Ontem, ela chegou ao insulto máximo.
Você não há de ver que, à tarde, ela enviou uma mocinha à minha casa com um embrulho, dizendo-se portadora de uma encomenda de um doador anónimo.
A jovem, que não teria mais que uns 14, 15 anos, entregou-me o pacote e partiu.
No entanto, ao desembrulhá-lo, deparei-me com fezes de animais...
— Que absurdo! exclamei.
Que falta de respeito!
E você comunicou o fato ao Major?...
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Ave sem Ninho

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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 02, 2018 9:46 am

— Não, o meu marido, como você sabe, teria ido à casa dela tomar satisfações e, tanto quanto possível, devemos evitar o confronto.
— Você não fez nada, Modesta?
Se não desejava envolver o Major, deveria ter me chamado...
- E o que você teria feito, Inácio?
Você vive apanhando e também não reage!...
— Bem respondi, procurando amenizar -, mas eu pelo menos teria providenciado que a tal encomenda fosse para a lata de lixo...
— Tive um destino melhor para ela...
— Qual?!
— Por inspiração dos nossos Maiores, adubei, no jardim, os meus inúmeros pés de rosas roseiras adoram esterco!
Dentro em breve, quando florescerem, colherei as mais lindas e as mandarei à minha vizinha com um pequeno bilhete meu...
— Isto chama-se pagar o Mal com o Bem...
— Nem tanto; melhor que eu ficasse quieta, mas, com certeza, o Mundo
Espiritual desejava lhe dar uma lição.
O assunto fora encerrado.
D. Modesta, ocupadíssima, necessitava voltar para cuidar do jantar.
Manoel Roberto, que escutara parte da nossa conversa, alertou-me:
— Doutor, não é do meu feitio sobrecarregá-lo, mas creio que seja meu dever informá-lo...
Nos últimos dias, tenho notado um desconhecido nos arredores do Sanatório; ele fica nas esquinas, escorado nos muros...
Não sei de quem se trata; o senhor sabe que isto aqui, por vezes, é pior que porta de igreja...
— Isto, não, Manoel esbravejei, brincando -; tudo, menos porta de igreja...
Mercado, cadeia, rodoviária, mas igreja não...
Não rebaixe o “meu” hospital.
— Certo retrucou o zeloso amigo -, mas, de qualquer forma, o senhor tome cuidado.
Afinal de contas, conforme costuma dizer, os maiores psicopatas estão nas ruas, não é?
— Estão todos à solta...
Os que estão aqui connosco são os mais inofensivos; os perigosos frequentam clubes, bares, restaurantes...
Sem dar muita importância ao assunto, pois, de facto, eram muitos os andarilhos e mendigos que rondavam às portas do Sanatório, encerrei o expediente daquela tarde e me preparei para ir embora.
Quando coloquei os pés para fora do hospital, notei um vulto que, dobrando a esquina, se escondera, deixando à mostra apenas um pedaço da aba do chapéu...
Entrei no carro e acelerei na rua deserta, pela qual apenas ecoavam os insistentes latidos de um cão.
Chegando à garagem de casa, quando me dispus a abri-la, fui abordado por um homem de muletas, com a face semicoberta de trapos.
— Doutoral disse-me, suplicante -, eu estou com fome...
— Estou chegando agora, meu amigo respondi -, e não tenho nada na cozinha...
Você aceita uns trocados?
— Não, dinheiro não; estou é com fome... respondeu, deixando-me surpreso; que eu me recorde, ele era o primeiro pedinte que recusava dinheiro...
— Mas, com o que eu lhe der insisti -, você poderá comprar um pão com mortadela e guaraná...
— Não como essas coisas, Doutor...
Eu queria mesmo era um prato de arroz com feijão e um pedaço de carne.
— Eu não tenho o hábito de jantar expliquei-me, tentando equacionar o problema.
Os gatos do senhor jantam, não jantam? - questionou-me com uma ponta de ironia nas palavras.
—Você tem razão disse-lhe, intuindo o que, no momento, não ficava mais claro para mim.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 02, 2018 9:46 am

— Espere um pouco.
A minha mãe mora nos fundos e eu vou conseguir comida para você!
Arroz, feijão e carne? perguntou.
— Carne, feijão e arroz... confirmei.
— Será muita bondade sua, Doutor!
— Bondade alguma, meu amigo.
Se fosse lá no hospital, você comeria na hora, mas eu moro sozinho e a cozinheira vai embora cedo.
Após guardar o carro, disse-lhe, auxiliando-o a acomodar-se numa cadeira do alpendre:
— Dentro de alguns minutos, estou de volta.
Escore as suas muletas na parede...
Você deve estar andando longe, nunca o vi por essas bandas...
— Estou apenas de passagem...
Eu moro em Veríssimo. O senhor conhece?
— Atendo pacientes de lá.
— O Doutor é famoso...
É médico e espírita, não é?
Mais espírita do que médico, meu filho, e menos espírita do que eu deveria ser.
Eu sou um nada tentando ser alguma coisa.
O homem de pele escura sorriu e eu entrei, pedindo a D. Marica, minha mãe, que morava com uma de minhas irmãs:
Prepare um bom prato de comida para mim arroz, feijão e carne...
— Uai, Inácio! retrucou a querida genitora, abeirando-se do fogão a lenha, pronta para me atender.
Estou estranhando a sua fome hoje...
— É para um senhor que está lá fora comentei, enquanto voltava para tirar os sapatos, que me estavam acabando com os joanetes, e colocar um par de chinelos.
Enquanto, nos vinte minutos subsequentes, eu abria duas suculentas latas de sardinhas para os meus gatos, que, impossíveis, me passavam por entremeio às pernas, ronronando, minha mãe preparava o referido jantar, que, com certeza, seria o almoço daquele homem.
Para minha surpresa, porém, quando fui, feliz, levar ao misterioso andarilho o prato de comida, ainda fumegante, ele não mais estava lá.
Em vinte minutos, simplesmente desaparecera!
Fui lá fora, ao jardim, procurei-o nas redondezas, perguntei por ele a um funcionário de antigo posto de gasolina contíguo à minha casa, e... nada!
Sem entender o que havia acontecido, desapontado, tornei a entrar em casa, somente então verificando que, na ânsia de encontrar aquele senhor, eu esquecera o prato de comida, destapado, em cima da mesa da copa e os gatos estavam fazendo a festa!
Nunca mais vi o misterioso mendigo em parte alguma.
Durante vários dias, por onde passasse, eu o procurava com o olhar, chegando mesmo a indagar por ele, descrevendo-lhe os traços fisionómicos, que eu não identificara bem, a outros pedintes que de hábito me batiam à porta de casa.
O fenómeno ainda me valera uma zanga da minha mãe, que, ao ver os gatos comendo no prato de porcelana de sua colecção de casamento, me chamou aos brios:
— Ora, Inácio!
Não havia pobre nenhum com fome...
Se você tivesse dito que a comida era para os seus gatos, eu teria providenciado numa outra vasilha...
— Não, minha mãe! - tentei, em vão argumentar.
Estava um senhor de Veríssimo lá fora...
— Cuidado, meu filho! Bem que os padres dizem que o Espiritismo deixa muita gente doida!
Ela disse-o rindo carinhosamente.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 02, 2018 9:46 am

18º Capítulo - Subtilezas
Através da psicofonia de D. Modesta, recebíamos, no Sanatório, a visita do célebre pesquisador italiano, Ernesto Bozzano, autor de diversas obras que eu tanto admirava, dentre as quais cito:
“Pensamento e Vontade”, “A Crise da Morte”, “Os Enigmas da Psicometria” e “Animismo e Espiritismo”.
Bozzano, sem dúvida, fora um dos continuadores da Codificação Espírita, esforçando-se, ao máximo, para difundir a tese da imortalidade entre os seus compatriotas.
Era a primeira vez que, digamos, de rediviva voz ele nos visitava em nosso modesto núcleo de trabalhos e nos permitia, pela médium em transe sonambúlico, o diálogo que se seguiu.
Com leve sotaque, mas falando um português escorreito, o cientista desencarnado, após breve saudação aos presentes em reduzido número, explicou:
— Talvez vos intrigue o facto de eu estar me expressando em vosso idioma... A palavra
é mera figuração do pensamento.
A ideia se reveste dos mais diferentes trajes idiomáticos sem que, com isto, sofra distorções de vulto.
Se eu vos falasse em italiano, as minhas palavras soariam sem eco à vossa compreensão...
Eu e nossa irmã estamos nos entendendo além dos limites do alfabeto, que, em verdade, em qualquer língua, por mais rica do ponto de vista gramatical, é o cárcere do pensamento.
Os espíritos, estejam no corpo ou fora dele, antes de contactarem através da palavra articulada, contactam-se pelos prodígios da percepção que transcende o verbo humano.
Falamos e sentimos emitindo vibrações com as quais sintonizamos.
Para a mediunidade, o fenómeno é o mesmo:
antes das palavras, o médium capta as imagens do pensamento e as emoções, revestindo-as com o vocabulário ao seu dispor.
Diz-se que o estilo é o homem; diríamos que o pensamento é o espírito, e vice-versa.
Para vos provar que aqui sou eu mesmo, necessito de ideias e não de linguagem que, a rigor, qualquer um poderia imitar.
Efectuando pequena pausa no magnífico preâmbulo, Bozzano passou a discorrer sobre mediunidade:
— A chamada percepção extra-sensorial é uma faculdade imanente; todos a possuem...
Desenvolvê-la, sobretudo, é desenvolver a sensibilidade.
O médium, por assim dizer, capta por todos os seus poros e não especificamente pelos sentidos representados pelos seus órgãos de percepção.
Mediunidade é contacto espírito a espírito.
Nos fenómenos de psicometria, que tivemos oportunidade de estudar quando na Terra, o sensitivo entra em contacto com o objecto que rastreia psiquicamente, auscultando-lhe a memória consubstanciada nas vibrações ou nos cumprimentos de onda que lhe são característicos.
O medianeiro, para melhor produzir, carece de entrar em contacto com elemento do Mundo Físico e do Mundo Espiritual...
Sirvamo-nos de uma analogia para corroborar o que afirmamos.
Alguém, observando uma casa exteriormente, poderá descrevê-la imaginando a dimensão de seus cómodos e, mesmo, o traçado arquitectónico, que a constituem internamente, todavia, para uma descrição mais exacta do seu interior, deverá adentrá-la, percorrendo salas e quartos.
O médium que, por escrúpulos, se priva da informação, nega aos espíritos importantes pontos de contacto para que a sintonia aconteça sem maiores embaraços, parte a parte.
Avancemos um pouco mais.
Suponhamos que determinada entidade espiritual que, por exemplo, tenha vivido em Atenas, na Grécia, deseje produzir uma obra mediúnica narrando episódios da Hélade distante...
Se o seu instrumento encarnado nada souber do Olimpo, da Acrópole, de Sócrates, de Platão e dos costumes do povo grego, muito provavelmente o espírito comunicante se frustrará em seu propósito, desistindo do intento ou, então, escrevendo um volume que será questionado no que se refere à sua autenticidade.
Além de se dedicar ao estudo, o médium é alguém que necessita de exercitar a memória e apurar a sensibilidade.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 02, 2018 9:46 am

Pausando novamente, o notável investigador prosseguiu:
— Recordo-me de que, quando estava trabalhando no livro “Os Enigmas da Psicometria”, o espírito Erasto, discípulo de Paulo de Tarso, que pontifica em “O Livro dos Médiuns”, de Allan Kardec, recomendou-me uma visita à determinada biblioteca em Florença.
Naturalmente, questionei-o acerca dos títulos dos volumes que eu deveria pesquisar, crendo que semelhante indicação de Erasto me pouparia tempo.
Para minha surpresa, ele me respondeu:
— “Nenhum título especificamente...
Apenas folheie o maior número possível de obras, procurando concentrar-se nas mais antigas.
Entre em sintonia com a biblioteca como um todo, sinta o seu cheiro, perceba as vibrações que falam mais que as palavras...”
Assim procedendo, notei que, através dos chamados registos acásicos (do sânscrito â-kâsha:
fluido), ou seja, da memória que todas as coisas possuem, daqueles que as tocam ou são tocados por elas, a minha própria percepção da Vida se dilatou...
As considerações de Bozzano que, à época, aproveitei quanto possível em meus
comentários espíritas nos artigos e livros que escrevi, me faziam enxergar a mediunidade em suas subtilezas inimagináveis.
Quanto, de facto, os candidatos ao serviço mediúnico deveriam evoluir, abdicando de certos preconceitos que entravam a livre manifestação de suas potencialidades psíquicas.
Agora, permitindo que lhe endereçássemos algumas perguntas, o cientista italiano desencarnado se colocava, com simplicidade, à nossa disposição.
Como nenhum dos presentes ousasse efectuar-lhe qualquer indagação, tomei a iniciativa e questionei:
— Sob o seu ponto de vista, quais as perspectivas da mediunidade para o futuro?
— As melhores - respondeu, incisivo.
Todavia não olvidemos que a percepção extra-sensorial por si só não basta; o direccionamento que se lhe dê é mais importante que a simples possibilidade de se intercambiar com as mais diferentes dimensões da Vida...
Mediunidade sem Evangelho comparar-se-á a qualquer sentido de natureza física.
Parafraseando o Cristo, diríamos:
“Se as vossas faculdades medianímicas vos forem motivo de perdição, anulai-as”...
— Em que a mediunidade poderá ser mais útil ao homem?
Conscientizando-o do seu porvir espiritual e, consequentemente, mudando o fulcro de seus interesses...
E o imediatismo que escraviza o homem às sensações grosseiras da matéria, impedindo-o de destacar-se do corpo perecível e assumir o controle de si.
— Kardec disse tudo em termos de mediunidade?
— É evidente que não. O notável mestre lionês não teve a pretensão de dizer a última palavra; ele próprio afirmou à exaustão que se trata o Espiritismo de uma doutrina dinâmica, ou seja, susceptível de aperfeiçoar-se com o avanço intelecto moral da Humanidade...
As bases, porém, foram lançadas.
Kardec sinalizou o caminho que, desde priscas eras, os homens percorriam de maneira aleatória.
A abordagem indiscriminada do Mundo Espiritual foi o que levou Moisés, o grande legislador hebreu, a coibir os abusos.
Neste sentido, a Codificação jamais será ultrapassada.
Evidentemente, no entanto, que, com um pouco mais de um século, a Ciência Espírita ainda está no seu alvorecer.
— E o animismo?
— Merece mais cuidadosa análise.
A alma do médium não pode ser subtraída do fenómeno.
A este respeito, admito que alguns apontamentos meus necessitariam ser revistos.
Com o intuito de afastar o fantasma da mistificação, generalizamos, e toda generalização tende a equivocar-se.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 02, 2018 9:47 am

O animismo genuíno não existe.
Sem a efectiva participação do médium, não existe mediunidade.
Aliás, devemos pugnar por uma mais consciente participação do medianeiro no intercâmbio entre as Duas Dimensões da Vida.
— O que teria a dizer quanto aos interesses subalternos na mediunidade?
— Deixa de ser mediunidade para ser obsessão.
O vampirismo espiritual é mais frequente no que chamais de mediunidade do que podeis supor.
Sem ética, o médium passa a ser um instrumento questionável.
Falanges inteiras de desencarnados se interessam em manter a Terra na retrógrada condição espiritual em que, infelizmente, ela ainda se encontra.
Espíritos existem que, há séculos, resistem à Divina Luz do Cristo e não se mostram dispostos a converter-se tão cedo.
— O Espiritismo cumprirá o seu papel?
— O Cristianismo logrou ou tem logrado cumprir inteiramente o seu?
Não nos esqueçamos da sábia advertência de Denis:
“O Espiritismo será o que dele os homens fizerem...”
Em vosso meio, já se encontram corporificados vários agentes das trevas, com o intuito de comprometer o avanço da Terceira Revelação.
Vede as constantes polémicas em torno do seu carácter religioso...
— Qual a sua opinião?
— Quem se dispõe a aceitar a Verdade deve abdicar de toda e qualquer visão personalista.
A rigor, não existem ciências: existe Ciência.
Um conhecimento não se dissocia de outro...
Todas as realidades são coexistentes.
Não há Ciência sem Religião, e vice-versa.
O que carece ser combatido são o fanatismo e a excessiva tendência mística do homem.
— Surgirão novos medianeiros que impulsionem a Doutrina?
— Todos vós sois chamados a dar o vosso quinhão.
A responsabilidade da Nova Revelação não pode recair apenas sobre os ombros dos médiuns ou... dos espíritos. Pesquisai.
Prometeu foi ao Olimpo e trouxe para a Terra o fogo dos deuses... Cooperai connosco.
Não é lícito que tudo espereis da mediunidade, cruzando os vossos braços.
Abandonai o comodismo.
Onde estão os pesquisadores espíritas da actualidade?
Refiro-me aos homens sensatos e não aos que deliram.
— A escada de Jacó...
— É um símbolo perfeito dos esforços que devemos conjugar, encarnados e desencarnados, para a vitória dos nossos ideais.
Se nos dispomos a descer por ela, de vossa parte, por ela deveis vos dispor a subir...
Naquela noite, eu extrapolara o tempo.
Quando consultei o meu relógio de bolso, verifiquei que quase duas horas de reunião haviam transcorrido, sem que eu absolutamente me desse conta.
Despedindo-se com um “até breve”, Ernesto Bozzano legara-nos farto material de reflexão e análise.
Voltando do transe, Modesta, sempre zelosa de tudo que concernia à Doutrina, também parecendo pressagiar sua não muito remota partida do plano terreno, solicitou-me:
— Inácio, não divulgue com claras palavras a visita que recebemos hoje...
Deixe isto para depois de minha desencarnação.
Você sabe, para o médium, os nomes ilustres sempre trazem complicação.
Fiquemos só com os nossos “guias” mesmo...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 02, 2018 9:47 am

19º Capítulo - No Corpo e na Alma
Aquela jovem que nos fora encaminhada pelo Hospital do Pênfigo Foliáceo, de Uberaba, chegara em situação lastimável.
— Qual é o seu nome, filha? indaguei, no curto diálogo que entabulamos, antes de providenciar a sua internação no Sanatório.
— Marta Maria, Doutor respondeu-nos, com o corpo todo coberto de empolas, ou bolhas, e manchas cutâneas fragmentadas, rubras. Chegou estendida sobre uma maca.
— Marta Maria... Bonito nome!
— Foi a minha falecida avó que o sugeriu.
— As irmãs de Lázaro, o ressuscitado! exclamei, aludindo ao episódio ocorrido em Betânia, do qual, posteriormente, o Senhor também seria acusado pelo Sinédrio:
trazer os mortos (aliás, pseudo-mortos) de novo à vida...
Qual é a sua idade? prossegui.
— Vinte e dois...
Nasci numa fazenda perto de Barretos.
O senhor conhece?
— Nunca estive lá, mas sei onde fica.
Quando foi que você ficou doente?
— Da pele ou dos ataques que sinto?
— Dos dois...
Conte-me desde o começo.
— Desde menina, Doutor, eu escutava vozes que me ameaçavam, tinha medo do escuro e não dormia direito...
— O que as vozes lhe diziam?
— Que iriam me matar, colocar fogo no meu corpo...
Clamavam por vingança.
— Quem é que estava cuidando de você?
— Uma madrinha...
A minha mãe morreu quando completei seis anos, e o meu pai, logo que fiquei doente, foi picado por uma cobra; não tive irmãos...
— Você mora com a sua madrinha?
— Morava, mas o segundo marido dela não me quer mais em casa; diz que a doença é contagiosa...
Eles têm um casal de filhos pequenos.
— E os ataques epilépticos?
— Sinto uma sombra se aproximar de mim e não consigo evitar...
Tento correr, mas as minhas pernas não obedecem eu não saio do lugar.
Dizem que quando eles acontecem, eu falo muita coisa...
Marta Maria era uma morena de olhos esverdeados; não fosse pelo “fogo selvagem”, sem dúvida, haveria de despertar muitas paixões.
O quadro, no entanto, era de difícil descrição:
da cabeça aos pés, a jovem apresentava descamações características, exalando odor desagradável.
As unhas das mãos, para que não se coçasse, complicando a cicatrização das chagas, haviam sido aparadas ao máximo e as pernas, praticamente em carne viva, estavam cobertas por um fino lençol.
Ao cheiro forte da epiderme em deterioração, juntava-se o da pomada de enxofre que lhe era aplicada duas vezes ao dia.
— Lá no Hospital do Pênfigo, Doutor - continuou a descontraída moça - parece fogo combatendo fogo...
D. Aparecida é muito boa para nós? - uma verdadeira mãe.
Depois da imersão na banheira, que fica tingida de sangue, ela nos passa a pomada, que é fabricada lá mesmo.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 02, 2018 9:47 am

Manoel Roberto, que atendera a ambulância que trouxera Marta Maria ao Sanatório, comentou comigo em voz baixa:
— D. Aparecida mandou dizer ao senhor que, nos últimos tempos, é um dos quadros mais renitentes que ela tem visto; o fígado da jovem já está comprometido e, também, há suspeita de câncer de pele...
Enquanto o Enfermeiro-Chefe me segredava tais palavras aos ouvidos, ainda na maca, a paciente caiu em transe.
Os olhos reviraram-se nas órbitas, os músculos tetanizaram-se e, de dentes cerrados, ela começou a dizer:
— Não adianta!...
Ela é minha!
Não descansarei enquanto não a levar comigo!
Vocês estão comovidos?
As aparências enganam.
Ninguém sabe o que ela me fez...
Há quase um século que eu a procuro...
Como o momento não se prestasse a qualquer doutrinação de espíritos, pedi a Manoel Roberto que me auxiliasse na transmissão de um passe.
Pousando-lhe a destra na fronte, coberta de pomada e suor, roguei a intercessão dos nossos Maiores.
Logo, passados alguns segundos, a moça foi se aquietando e as convulsões diminuindo de intensidade.
De facto, o assunto era complexo.
Eu também ainda não vira nada semelhante!
Epilépticos eram frequentes no Sanatório, mas não com aquelas características.
Enquanto Marta Maria se recuperava daquele estado de lassidão, o companheiro detalhou:
— D. Aparecida acredita que ela não terá mais muito tempo de vida, Doutor.
Enviou-a a nós para ver se conseguimos curá-la do problema obsessivo, antes que o seu desenlace físico se concretize.
Os ataques são frequentes, ocorrendo até três, quatro vezes ao dia...
— É natural - respondi.
Ela está fragilizada...
Conversaremos com a Modesta.
Por enquanto, vamos mantê-la no isolamento, mas não quero que fique sozinha.
Vamos nos revezar; quero alguém de hora em hora entrando no quarto...
— Qual a prescrição, Doutor?
— Vamos hidratá-la.
No mais, água fluidificada e passes todo dia.
Pelo inchaço do rosto, ela deve estar tomando muito corticóide; as funções renais certamente estão comprometidas...
Não vamos sedá-la.
— Como está, minha filha? - reaproximando-me, indaguei da desfigurada paciente algo sonolenta.
— Um pouco melhor...
Quem é ele, Doutor?
— Quem?...
— O homem que entra no meu corpo...
Ele parece me odiar.
— Talvez seja impressão sua - desconversei.
Em essência, ninguém odeia ninguém.
O ódio é um sentimento imaginário.
Só o amor é real.
Às vezes, Marta Maria, adoecemos...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 02, 2018 9:47 am

A doença do espírito é a pior.
Jesus Cristo vem tentando nos curar, até hoje...
— Eu não o odeio, Doutor, mas quando ele vai embora, fico com o corpo todo dolorido; tenho a impressão de que ele me espanca por dentro...
Fazendo pequena pausa, interrogou-me:
— O senhor acredita em reencarnação?
— Sim, acredito.
— Lá em Barretos, um senhor que ia me visitar me dizia que, noutra existência, eu devo ter feito mal a alguém...
— Isso não é privilégio seu brinquei.
— Como assim?
— Todos somos espíritos comprometidos...
— Mas eu sofro muito...
Será que eu vou me curar?
Sabe, Doutor, eu gosto de um rapaz; quando eu tinha dezasseis anos nos conhecemos numa festa...
Depois que eu comecei com este problema na pele, ele se afastou.
— Pretendentes por aqui é o que você mais vai ter; e vou avisando que já estou na fila disse, conseguindo arrancar discreto sorriso daquela flor humana prestes a se despetalar.
— O senhor acha que eu melhoro? p insistiu.
— É claro respondi, convicto.
— Ainda nesta vida?...
— Todos, de fato, temos muitas existências, mas a Vida é uma só...
Ignoro de quanto tempo de tratamento você vai precisar, mas posso garantir que será curada.
— Doutor, o quarto está pronto interrompeu-nos Manoel Roberto.
— Você será nossa hóspede por alguns dias, Marta Maria!...
O seu nome é muito sugestivo; faz-me lembrar de um texto produzido por um dos meus autores predilectos observei, ajeitando o quase transparente lençol sobre o seu corpo desnudo.
— Qual? perguntou-me, interessada.
— Victor Hugo!...
— O que ele escreveu a respeito do meu nome?
— Escreveu que Marta está onde termina a Terra e Maria onde começa o Céu...
— Eu não entendi...
— É que Jesus se hospedava na casa delas duas, que eram irmãs de Lázaro, um de seus amigos.
Quando Ele as visitava, Marta, ao invés de imitar o exemplo de Maria, que permanecia a seus pés a ouvi-lo em suas inesquecíveis pregações, absorvia-se na faina doméstica; ora, Marta, convenhamos, poderia cuidar disso depois...
— Eu também concordo.
— E você, minha filha, está mais para Marta ou para Maria?...
Com os olhos lúcidos e lindos que se encheram de lágrimas, a única parte de seu corpo que, a rigor, não fora tocada pelo pênfigo foliáceo, a Jovem respondeu, tristonha:
— Eu queria ser mais Maria do que Marta!...
Manoel Roberto, uma vez mais, intervirá no momento certo:
— Está na hora do almoço...
— Viu, filha, como é difícil ser Maria com o estômago vazio? Qual o cardápio?...
questionei.
— Arroz, feijão, frango caipira, polenta e quiabo...
— Eu não posso comer carne, Doutor...
— Pode, um pedacinho, você pode expliquei, avaliando que, diante da gravidade do seu quadro clínico, não faria a menor diferença, ainda mais tratando-se de carne branca.
Acompanhei-a até o isolamento, verificando se ela haveria de ficar bem acomodada, e pedi ao próprio Manoel Roberto que se esforçasse no sentido de que a paciente se alimentasse.
Precisávamos de tempo.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 02, 2018 9:47 am

No outro dia, quarta-feira, eu e a irmã D. Modesta fomos visitá-la de manhã.
A enfermeira que praticamente passara a noite ao seu lado informou:
De madrugada, ela teve uma crise...
— Epilepsia? perguntei.
Um pouco diferente, Doutor explicou a experiente cooperadora.
As reacções são idênticas, inclusive incontinência urinária, mas ela falou coisas estranhas...
— Voltou logo?
— Foi uma crise rápida.
— Marta Maria, esta é a nossa D. Modesta; D. Modesta, é a nossa Marta Maria, que nos chegou ontem disse, apresentando uma à outra.
— Como vai, minha filha? - indagou a abnegada companheira, tomando a destra da menina entre as suas mãos.
— Bem, e a senhora?...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 03, 2018 10:03 am

20º Capítulo - Ódio e Desdita
Vale ressaltar que, no caso de Marta Maria, os anti-convulsivantes que lhe haviam sido prescritos por um clínico surtiam pouco resultado; apesar de os medicamentos lhe serem ministrados com frequência, as crises epilépticas não se reduziam satisfatoriamente...
A enxertia psíquica que se estabelecera entre ela e o algoz desencarnado como que anulavam, em nível de quimismo cerebral, os efeitos dos remédios.
— Graças a Deus, tudo em paz, filha respondeu Modesta, com a voz embargada.
A senhora acha que eu vou sarar?
Sem dúvida. Você não estava assim antes, não é?
Qualquer doença é um estado transitório...
O importante é não perder a esperança.
— Tenho medo da morte...
— Ora, a morte não existe; o espírito sobrevive...
— Não é bem da morte em si; o meu receio é que ele fique me esperando e me impeça de me encontrar com a minha mãe...
— Ele quem?
— A sombra que se aproxima de mim...
Tenho a impressão de que se trata de um homem morto...
Ele me diz coisas horríveis.
— O que, por exemplo?
— Que falta pouco para eu estar com ele e que, então, a sua vingança será completa.
— Ele a acusa?
— Diz que sou responsável por aquilo em que ele se transformou...
Eu não me lembro de, algum dia, ter feito mal a alguém.
— Às vezes, não temos a intenção observou D. Modesta, referindo-se, com certeza, aos equívocos do sentimento que, não raro, induzem os outros a sofrer...
— Só se foi em outras vidas, senhora.
Mas, mesmo assim, eu não sinto em mim a menor inclinação para fazer o mal.
— Não vasculhemos o passado, que, em quase todos nós, é um sombrio ponto de interrogação...
A rápida conversa foi encerrada.
A jovem, que me parecia mais frágil que na véspera, se revelava mais tranquila, respondendo positivamente ao tratamento espiritual intensivo; o ambiente do Sanatório me parecia lhe ter sido extremamente propício, prova evidente de que os nossos Benfeitores permaneciam agindo nos bastidores da Vida de Além-Túmulo.
Naquela quarta-feira, Marta Maria teve apenas uma crise, assim mesmo sem a gravidade das anteriores.
À época, estávamos cuidando de mais de quarenta pacientes, entre homens e mulheres, e, em todos eles, o problema de obsessão se caracterizava.
Eu sempre me preocupei com a situação dos obsidiados que desencarnavam sob o assédio de seus perseguidores; segundo relatos da virtuosa médium, muitos continuavam presas de seus algozes invisíveis que, mesmo tendo consumado parcialmente os seus intentos, não perdoavam aos desafectos...
O ódio era uma corrente de aço cujos elos careciam de ser rompidos, para que os mutuamente envolvidos se libertassem.
Havia casos também em que a vítima na Terra, nas dimensões extrafísicas passava a ser o verdugo, pois, quando o obsessor saciava a sua sede de vingança, o obsidiado, se refazendo, partia para a desforra.
Na sessão de desobsessão daquela noite, assim que caiu em transe, D. Modesta ofereceu passividade ao espírito que atormentava Marta Maria.
— Larguem-me! - disse, quase a vociferar.
Não me obriguem...
Eu não desrespeito vocês.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 03, 2018 10:03 am

O que querem de mim?
Estou apenas cobrando uma dívida...
Não interfiram!
— Acalme-se, meu irmão dialoguei, concedendo tempo para que a entidade comunicante melhor se explicasse.
— Vocês não conhecem o meu drama.
Eu amei essa mulher e fui traído por ela.
Namorávamos, e ela acabou cedendo ao dono da fazenda em que trabalhávamos, um homem de muito dinheiro.
Ao sabê-la grávida, ele a abandonou e ela me mentiu, dizendo que o filho era meu.
Fiquei feliz e providenciei tudo para o casamento.
A criança nasceu, mas não se parecia nada comigo; eu era mulato, e o menino, de pele clara, tinha os cabelos loiros...
Aguentei humilhações maledicentes e me sentia desmoralizado.
Apesar de tudo, eu era louco por ela.
Fomos levando a vida, mas, de nós dois, não conseguíamos filhos.
Passaram-se quase cinco anos e eu continuei sufocando aquela amargura que, aos poucos, me induzia ao desequilíbrio.
Tomando fôlego, o obsessor prosseguiu contando a versão da triste história de sua vida.
— Aconselhado por um amigo e sem nada dizer a ela, ajuntei um dinheiro e fui ao médico; após vários exames, o resultado foi que eu era estéril, ou seja, jamais poderia ter filhos meus...
Guardei segredo do diagnóstico, pois a infeliz vivia me cobrando um filho.
Procurei compensar, cercando-a de carinho e tratando como se fosse meu o menino que eu tinha certeza que não era.
Com o tempo, porém, o desgaste em nosso relacionamento foi acontecendo e o amor que havia sobrado se transformou em indiferença.
Até que um dia...
— Continue, fale, desabafe - encorajei-o.
— Não sei por que hoje estou lhes dizendo tudo isto...
É a primeira vez que me abro com alguém assim.
Isto tem tanto tempo, no entanto para mim parece ter sido ontem...
— Para o ressentido, meu irmão, o tempo é uma cadeia...
— Deve ser mesmo...
Mas o que fazer quando o ressentimento nos engole?
Eu desapareci por completo!
Eu não existo!...
A minha única saída é a vingança; sinto necessidade de fazê-la sofrer...
Quero lavar a minha alma e esquecer a dor que ela me causou.
Eu vivia de enxada nas mãos para sustentar as vaidades dela, dando de comer ao filho que era objecto de meu escárnio nas redondezas...
Todavia o pior ainda estava por acontecer.
— Prossiga, não esconda mais nada.
Estamos aqui para auxiliá-lo em definitivo - insisti, fraternalmente.
Você ia dizendo: até que um dia...
— Até que um dia, quando voltava da roça, ela estava me esperando na porteira do rancho em que morávamos e, sem meias palavras, me contou que, finalmente, havia engravidado de mim...
O mundo rodou aos meus pés e quase desfaleci.
Interpretando a minha reacção como alegria inusitada, certamente movida por um segundo arrependimento, ela me cobriu o rosto de beijos que, instintivamente, eu procurava evitar.
A minha cabeça era um vulcão prestes a explodir...
Tive ímpetos de matá-la ali mesmo, cortá-la em pedaços com a foice e atirá-la no rio repleto de piranhas que corria próximo.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 03, 2018 10:03 am

A grande custo, me contive uma vez mais, pois, apesar de tudo, eu a amava...
Não me obriguem a contar o resto, pois o meu ódio ainda não acabou; não descansarei enquanto não a reduzir a cadáver!...
— Mais ainda, meu irmão...? - ousei questionar.
— Mais, muito mais...
Por causa dela, a minha vida acabou.
Ela me destruiu, me matou duas vezes:
primeiro, me feriu os brios de homem e depois me consumiu a alma...
Eu não tenho alternativa.
Não me fale em recomeço, reparação...
De há muito, tenho ouvido essa conversa.
Afinal de contas, quem é que deve a quem?
Ela é a única responsável pelo meu inferno...
Em meio à penumbra do salão, a entidade que D. Modesta incorporava de rosto transfigurado continuou:
— Durante quatro meses arquitectei um plano.
Eu não podia deixar que o ventre dela crescesse...
Eu não sei como (devia ser devido a um dos poucos amigos a quem confidenciara o resultado negativo do meu exame de fertilidade), mas comentava-se que eu era estéril.
Comecei a beber e chegar embriagado a casa, espancando-a.
Coisa curiosa:
no garoto louro, que não era meu, eu não tinha coragem de encostar um dedo sequer...
Fisicamente, ele em nada se parecia comigo os seus traços delicados contrastavam com a genética da minha raça; a minha avó materna havia sido uma negra pega a laço nos tempos da escravidão...
Um dia, totalmente possesso, tomei a decisão:
à noite, quando os dois estivessem dormindo, eu atearia fogo ao rancho.
Era, até certo ponto, comum que ranchos se incendiassem o lampião, o querosene...
Eu me safaria. Daria o alarme.
Correria à cidade, desesperado. Encheria a cara de pinga...
Transformaria em cinzas a minha vergonha!
Quem sabe, eu acabasse me convencendo de que tudo havia sido pela Vontade de Deus...
Então, numa noite tão escura quanto a que minh’alma mergulhara, deixei a esteira e, sem qualquer remorso, espalhei o líquido inflamável por dentro e por fora de nossa casa de pau-a-pique, coberta com folhas de indaiá.
Cego, absolutamente cego, como se estivesse escutando zombaria dos colegas e as conversas irónicas, acendi a binga e...
Nesse instante da narrativa, do isolamento em que Marta Maria descansava, um grito ecoou no recinto onde a nossa reunião mediúnica se processava.
— Grite, infeliz! - bradou o espírito, movimentando a cabeça de D. Modesta para trás.
— Grite e chore!...
Ainda que eu a faça chorar mil vezes, isto não valerá pelo que você me fez!
Eu não esqueço, eu não perdoo!...
A sua alma que, infelizmente, é imortal, é que precisaria ter se consumido naquelas chamas!
— Tranquilize-se, meu irmão, e contenha-se - apelei.
— Estamos num hospital e todos somos doentes.
Quanto mais fundo lancemos os nossos irmãos no abismo de nossos rancores, mais profundamente seremos compelidos a descer com o propósito de
resgatá-los.
— Quando o rancho começou a ser envolvido pelas labaredas, escutei os gritos do filho que, sem perceber, eu estava amando como se tivesse sido gerado por mim:
— “Papai! Papai! Socorro!...
Tire-nos daqui!
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 03, 2018 10:03 am

Papai, onde está o senhor!...”
O mal que, até então, ainda não estava em mim completamente deixou-me lúcido por instantes e, de todas as formas, tentei invadir a palhoça para resgatar o garoto louro das chamas... Inútil!
Tudo estava consumado.
Aquela mulher, agora, me transformara também num assassino de crianças.
Com o corpo chamuscado, tive um álibi perfeito.
Ninguém me acusou de nada.
A polícia, sem viatura, sequer fora ao local investigar, acreditando nos meus bons antecedentes e enaltecendo o meu heroísmo por tentar salvar a família.
O corpo carbonizado daquela que me incendiara a alma, ao ser removido, estava sobre o corpo do menino...
Chorei convulsivamente, mas, aos poucos, o pranto outra vez cedeu lugar ao ódio.
Aquela mulher era duplamente culpada!
Morrera, é verdade, mas, embora prosseguisse vivo, eu também morrera, e morrer sem morrer significa morrer duas vezes!...
Enquanto D. Modesta respirava, eu, discretamente retirando do bolso do jaleco o meu lenço surrado, tentei enxugar as lágrimas que não contive.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 03, 2018 10:03 am

21º Capítulo - O Menino Iluminado
— Enlouqueci - desdobrou-se a cruel narrativa.
Enquanto vizinhos e amigos de mim se compadeciam, manifestando solidariedade, pesadelos terríveis povoavam as minhas noites.
Via-me, implacável, atando crianças e mulheres indefesas e ateando-lhes fogo às vestes...
Acordava suando abundantemente e... mergulhei mais profundamente na bebida.
Nem cuidando da lavoura eu tinha sossego. Escutava vozes que me acusavam, gargalhadas sarcásticas que não se apiedavam do meu sofrimento.
Por vezes, conversava alto no meio do mato, tentando me defender e justificar o que fizera, como se para tamanho crime houvesse justificativa plausível; alegava que fora atingido em minha honra e que aquela mulher, que eu amara perdidamente, arrasara com á minha vida...
— “Assassino de criança!...
Você nunca mais terá paz!...
O que fez haverá de pesar na sua consciência para sempre!...” eram pensamentos que me ecoavam, com insistência, na cabeça.
Não resisti. Tomado pelo remorso e pelo ódio, esvaziei quase um litro de aguardente e caminhei, resoluto, para as margens do rio...
Mais de seis meses haviam se passado daquela noite terrível que me fizera conhecer o Inferno.
Bêbado e chorando, antes de me atirar às águas traiçoeiras, repletas de piranhas, amaldiçoei o espírito daquela mulher que me reduzira a nada...
Onde estava Deus, que não interferia?
Por que o Criador não me pulverizava o ser, deixando-me em minúsculas partículas, em pó, disperso no Universo?
Subindo numa figueira próxima à barranca, saltei para a morte...
O silêncio se fez mais pesado e aquele homem prosseguiu, evidenciando extrema perturbação:
— Está satisfeito agora?
Você não queria saber?
Me absolve ou me condena?
Você não é o juiz neste tribunal?
Quantos anos de prisão?
Ainda tem coragem de defendê-la, aquela que me traiu e me transformou num criminoso?
O que ela está sofrendo, acredite, é ainda muito pouco...
Você não pode avaliar a minha situação...
Em meu lugar, qualquer um teria feito o mesmo ou pior.
Aquele era o instante de falar.
Questionando-me, a entidade me dava o direito de responder.
E, rogando inspiração ao Alto, iniciamos mais proveitoso diálogo:
— Meu irmão, a sua história é impressionante, dolorosa...
Não estamos aqui para contestar o seu direito ou duvidar dos seus sentimentos.
Mas o que você pretendia já se consumou...
A taça de fel está transbordando a sua e a de nossa infeliz irmã.
, — Recuso-me a beber com ela na mesma taça...
— No entanto ambos elegeram o mesmo cálice...
Queira você ou não, os seus destinos estão entrelaçados.
Nem com a morte do corpo vocês conseguiram se distanciar um do outro...
No fundo, ainda existe amor.
— Não blasfeme!
Eu sempre a amei mais do que ela a mim...
— A nossa irmã está morrendo...
— Que nada!
A morte, infelizmente, não existe...
Mil vezes morrer e encerrar isso tudo.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 03, 2018 10:04 am

Ela viverá para o meu tormento.
Eu a esperarei, para fulminá-la com o meu ódio...
Quero que ela veja com os seus próprios olhos a que me reduziu; se ela tem feridas no corpo, eu tenho chagas no coração...
— O perdão seria remédio para os dois...
— Perdoar?! Ora, não delire...
Eu, perdoar-lhe?!
Depois de tudo, resolver assim tão simplesmente?...
O perdão é uma palavra terrível.
Ponha-se você no meu lugar.
Está tudo perdido...
— Vocês poderão recomeçar...
— Em que condições?
Não se esqueça de que eu sou um suicida e um criminoso...
Você me quer arrastando-me no mundo?
Verme por verme, estou melhor assim; o meu ódio me sustenta.
— Você está perdendo precioso tempo...
Jamais conseguirão se separar; você está imantado a ela...
A sua esposa é hoje uma outra pessoa.
0 sofrimento torna maleável o aço dos nossos sentimentos.
Há quanto tempo estão juntos?...
— Não sei, uma eternidade...
Estou esperando ela morrer para que eu me liberte.
Irei para longe...
Dizem que existem desertos no Espaço; me isolarei num deles...
A Vida não me interessa, Deus não me interessa.
Se estou condenado a viver, que seja à minha maneira...
— Você se cansará...
0 mal não está na natureza do homem.
— Não! Como, então, desde crianças, revelamos tendência para a destruição?...
— Somos imperfeitos, ignorantes, não maus.
A ignorância não nos permite senso do que é correto.
Deus habita em nós; inútil que Dele tentemos nos distanciar...
Aproximando-se do Criador, a criatura descobre a verdadeira identidade.
— Sou um homem rústico e não entendo.
Apenas sei que ninguém conhece a Verdade...
— O Amor é mais importante que a Verdade; quem ama vivência a Verdade sem conhecê-la...
— Eu não sei o que é o Amor e duvido que alguém o saiba...
— Você sabe arrisquei, tentando dar um novo direccionamento à conversa.
— Eu?! Não ironize; respeite a minha dor...
— O tempo todo você está evitando tocar em significativo capítulo do seu drama.
— Não estou entendendo; seja mais claro...
— Onde está o filho que você adoptou como se fosse seu?
Onde está o menino louro, pelo qual não hesitou em enfrentar o fogaréu?
O espírito urrou e se debateu no corpo da médium como se houvesse sido ferido de morte.
— Não, não!
Não me recorde dele, peço-lhe.
Não me debilite as energias.
Preciso concentrar-me na minha vingança.
Não traga sol para a minha alma, que se habituou à escuridão!
O Amor, se existe, está para lá das estrelas...
Não me fale dos anjos...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 03, 2018 10:04 am

— Ele não era seu e você o amava; não descendia do seu sangue, mas provinha do seu espírito...
— “Papai!” - foi a única palavra doce que escutei na vida.
Por vezes, ele me esperava na porteira e eu o colocava nas costas, brincando de cavalgar...
Proíbo você de apelar para os meus sentimentos mais ternos.
— Sentimentos? - foi minha vez de indagar.
Então, admite tê-los?
— É um território sagrado e inexpugnável dentro de mim; prefiro ignorá-lo...
— Como você pode amar o filho e odiar a mãe?
— São coisas antagónicas...
O coração tem dois lados.
— Mas pulsa no mesmo ritmo...
— A noite nada tem a ver com o dia...
— É o mesmo que dizer que o lado direito do corpo pudesse viver sem o seu lado esquerdo...
Como amar os que amamos, odiando aquela que é amada por eles?
E se ele, o menino de cabelos louros, viesse pedir que você lhe perdoasse a mãe?
— Não me chantageie...
Isso é loucura!
Eu nunca mais o vi e creio até que ele tenha se esquecido de que eu existo. Estou sozinho...
— Você se isolou voluntariamente.
Os nossos olhos só enxergam o que queremos ver...
— O ódio ocupou-me a mente.
Pare com essa conversa...
Você está me deixando fraco.
Eu quero ir embora...
Necessito voltar para o lado dela; está na hora de eu entrar no corpo mal-cheiroso dela...
O corpo dela é a minha tumba e a sua alma o meu esquife.
— “Pai de Infinita Misericórdia comecei a orar - socorrei-nos em nossas debilidades e compadecei-Vos de nossos males...
Necessitamos de Vós, como a flor mirrada do deserto necessita do orvalho da noite.
Por piedade, vinde em nosso auxílio!
Tocai o nosso coração endurecido e fazei-nos ver a luz que esplende à nossa volta...
Intercedei, Senhor, para que a nossa ignorância não se prolongue por mais tempo e aproveitemos todas as oportunidades de nos redimirmos que a Vossa magnanimidade nos concede.
Não nos levantaremos, sem o concurso das Vossas mãos!
Fazei cessar em nós o ressentimento de que já nos encontramos cansados e anulai toda inclinação que ainda revelemos para o mal.
Libertai-nos!
Sem que sejamos amparados por Vós, eternizaremos as próprias penas e jamais conheceremos a alegria.
Que os Vossos prepostos, anónimos seareiros da Espiritualidade Maior, venham, em Vosso nome, em nosso auxílio neste momento.
A nossa Marta Maria agoniza na esteira das provas que entreteceu no passado e, aqui, o nosso irmão revela-se extremamente necessitado da Vossa protecção...
Permiti que, doravante, um novo caminho se lhes descerre à visão e a brisa de uma esperança nova lhes refrigere as almas combalidas.
De Vós esperamos o que em nós não encontramos para dar...
Seja, no entanto, hoje e sempre, segundo a Vossa sacrossanta vontade!...”
— Que luz é essa, meu Deus! - exclamou o desencarnado infeliz, ao término da oração que acompanhara em silêncio.
Há quanto tempo não vejo claridade alguma!...
— Atente para o fenómeno, meu irmão; procure fixar a luz...
— Não, não é possível...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 03, 2018 10:04 am

Eu sou criminoso e suicida!
—Acima de tudo, você é filho de Deus, e Deus é Perdão!...
— Depois de tanto mal que fiz...
— Todo e qualquer Mal não se compara a uma única atitude no Bem...
— Eu não vejo futuro para mim...
— Alguém o guiará...
— Quem?...
— Veja com os seus próprios olhos.
Observei, confiante, quase instintivamente, chegando a divisar o quadro que se formava.
— É um menino iluminado que me estende os braços e me chama de pai!...
Confesso-lhes que não tive mais argumentos e sequer pude seguir com a doutrinação.
Dentro do peito, o coração disparara e, emudecido, agradeci mentalmente à intercessão dos nossos Benfeitores.
A entidade não acrescentara ao nosso diálogo mais uma só palavra.
Sem os recursos da clarividência, soube, depois, por D. Modesta, que, amparado pelo filho, que finalmente encontrara condições de vir ao seu encontro, tivera início o seu processo de reconstrução íntima.
No entanto, não obstante liberada do assédio daquele que a supliciava, a situação física de Marta Maria piorara sensivelmente.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 03, 2018 10:04 am

22º Capítulo - O Desenlace
Por um pouco mais de dois meses, nos foi dado conviver com Marta Maria.
Apesar de sua acentuada fragilidade e complicações de natureza orgânica, as crises epilépticas desapareceram.
— Doutor dizia-me -, estou sentindo uma paz que nunca experimentei...
Aquela sombra que entrava no meu corpo desapareceu.
Não sei como agradecer a vocês, ao senhor e D. Modesta.
Tenho dormido com facilidade e, por vezes, vejo que o meu espírito se liberta.
Sonho com lugares lindos, que estou num campo todo coberto de flores e que uma criança caminha na minha direcção...
0 peso que me oprimia desapareceu, mas começo a duvidar de que vou melhorar. Não sei...
— Não percamos a fé, minha filha.
O amanhã pertence a Deus argumentava, observando que, lentamente, a jovem se desembaraçava dos laços que aprendiam ao corpo desfigurado.
Sejamos optimistas e nos confiemos à vontade Daquele que sabe o que é melhor para nós.
— Não sei como agradecer...
Este hospital, para mim, está sendo uma bênção.
Sinto-me leve e... não tenho receio da morte; quando ela vier, será bem-vinda...
— A morte não existe.
As vidas que vivemos se sucedem ao infinito.
Cada existência física é uma simples página no livro da Eternidade.
Não é a primeira vez que aqui estamos e, com certeza, não será a última...
— Agora entendo.
Deus não seria Deus, caso nos reservasse outro destino.
Eu não tive, nesta existência, oportunidade de ser feliz...
Fiquei órfã de mãe muito cedo e, quando veio a doença, todos me abandonaram.
Por que outros teriam diferente sorte, não é?
— Não vivemos, minha filha, à mercê das circunstâncias.
Deus é Pai de Infinita Bondade.
Tudo que nos sucede é consequência de uma acção.
0 esquecimento do passado é semelhante ao anestésico para quem deve se submeter a uma cirurgia; imaginemos alguém sendo operado, sentindo os efeitos do bisturi e guardando plena lucidez da dor...
Com certeza, o sofrimento dele seria maior e acabaria por pedir a morte.
Em tudo, precisamos admirar a Sabedoria do Criador.
— O senhor tem razão...
Coisa boa eu não devo ter feito no passado.
Ninguém nos odeia de graça.
Aquela sombra que invadia o meu corpo e me possuía a alma vinha para me cobrar...
Nos diálogos que eu tinha oportunidade de manter com Marta Maria, algo me levava a intuir no sentido de prepará-la para o desenlace, que pressentia próximo.
Assim que aquela entidade se afastou, um quadro febril persistente se instalou e as suas funções renais se agravaram.
Coisa curiosa:
antes, ao estetoscópio, o seu coração batia forte e ritmado; agora, no entanto, as pulsações cardíacas vacilavam...
De certa maneira, o espírito que com ela havia se comprometido a sustentava em sua vitalidade.
O semblante sofrido daquela jovem quase que se transfigurara e a sua resignação me levava às lágrimas.
Raras vezes, eu conseguia conversar com ela, sem ter que
interromper o nosso diálogo, alegando qualquer coisa para ir enxugar, fora do quarto, os meus olhos molhados.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 03, 2018 10:04 am

— Doutor falou-me um dia -, não chore por minha causa.
O senhor é como se fosse o pai que, infelizmente, não tive.
Fico triste quando o vejo acabrunhado...
Não precisa esconder de mim a verdade; sei que a minha vida está por um fio...
Como é que eu poderia sobreviver neste corpo?
A doença praticamente o destruiu; por vezes, Doutor, eu mesma não suporto o cheiro forte que emana das bolhas pustulentas...
Não posso, no entanto, me desesperar; eu só tenho a agradecer...
Sinto que o objectivo desta minha existência era curar as enfermidades da alma...
De voz embargada e, como sempre, recorrendo ao enganador cigarro, que acendia quando me via necessitado de pensar para falar, tentava, em vão, descontrair-me:
— O médico aqui sou eu; você não sabe nada...
Fique quietinha e trate de se alimentar.
O pessoal da cozinha me tem dito que você nem belisca direito...
— Não tenho fome, Doutor; o senhor sabe que tenho ferido até o céu da boca as aftas me incomodam e a gengiva sangra com frequência...
— Vamos tirar os seus dentes e você há de ficar como eu, banguela brincava, mostrando-lhe as minhas próteses e fazendo careta.
— O senhor é um anjo...
— Se eu fosse, teria asas, colocaria você nas costas e nos mandaríamos daqui...
— Para onde me levaria?
— Bem longe deste mundo louco...
— O senhor não é médico de loucos?
Como é que nos quer abandonar?
— Eu já estou pior do que vocês; quem trata de loucos tem muito de loucura...
— Está querendo me alegrar, não é?
Quero lhe pedir uma coisa:
quando eu estiver para morrer, o senhor segura a minha mão?
— Ora, Marta, não vamos falar nisto...
— É que eu ainda me sinto um tanto insegura; passei a imaginar a morte como se fosse um salto no escuro tenho receio de cair onde não devo...
— Você se refere àquela sombra, não é?
Não se preocupe, ele não mais a incomodará...
— Ele? Então, o senhor sabe quem é?
Conte-me. Não me esconda nada.
O que houve entre nós, no passado?
— Não toquemos no assunto, filha.
Para quê?
Prometo segurar a sua mão, mas... vamos fazer um trato.
— Qual?
— Se eu chorar, você não me perguntará o motivo.
Quando o telefone tocou naquela noite e escutei a voz de Manoel Roberto do outro lado da linha, troquei-me às pressas, tirei o carro da garagem e, de madrugada, rumei para o Sanatório.
De facto, Marta Maria estava expirando, completamente lúcida.
— Eu estava esperando o senhor chegar - falou com extrema dificuldade.
Sabe aquele menino dos meus sonhos?...
— Um menino louro?...
— Eu nunca lhe disse, Doutor, que ele fosse louro!...
— É só um palpite.
— Eu sei que o senhor sabe, mas não precisa se explicar.
— O que tem o menino? perguntei, desconversando.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 04, 2018 10:01 am

— Ele entrou no meu quarto no começo da noite; fiquei sem voz, mas ele me pediu calma...
— É um espírito bom...
— ...que veio para me buscar, não é?
— É possível, minha filha.
A febre habitualmente alta, cedera lugar a frio torpor.
A jovem, de lábios ressequidos, não mais conseguia sorver uma única gota d’água.
Com um algodão molhado, eu procurava aliviá-la.
— Doutor, segure a minha mão... -pediu-me, antes de lentamente, ir perdendo a consciência.
Eu não me esquecerei do senhor...
Eu não me esquecerei...
Cerrando as pálpebras, o coração foi se lhe aquietando no peito, até que, por fim, imperceptivelmente, parou de bater.
O desenlace de Marta Maria estava consumado e aquela sua tremenda prova superada.
Telefonando para o Hospital do Pênfigo Foliáceo, Manoel Roberto trouxe a notícia:
Doutor, ela não tem quem se responsabilize pelas despesas...
Teremos nós mesmos que providenciar...
— O problema, Manoel, não é a urna nem o túmulo; o problema é o abandono, é o carma que não cessa...
— Como assim?
— Os indiferentes a ela serão chamados pela Lei à inevitável prestação de contas.
O carma humano é uma espécie de círculo vicioso; todos estamos sempre nos comprometendo...
Tomamos emprestado de um para pagar a outro e vamos rolando a dívida, que, na verdade, só parece crescer.
— No entanto não será providencial? - inquiriu o companheiro com sabedoria.
— O que, Manoel?
— Que os nossos carmas se entrelacem...
— Sim, o propósito da Lei é indiscutível, mas... teria que ser diferente.
Aquele não era o momento para discussões metafísicas.
Logo que o dia amanheceu, providenciamos o sepultamento, a que, além de mim e D. Aparecida, Directora do Hospital do Pênfigo, ninguém mais acompanhou.
— A senhora tem visto muitos casos assim, não é? - perguntei àquela irmã, que, em meu carro, seguira comigo ao cemitério.
— Dezenas, Doutor! Dezenas...
Os familiares trazem o doente e o largam lá.
Muitos o deixam, de madrugada, na porta do Hospital, sem sequer um documento...
É para a gente não entrar em contacto.
— E os doentes, o que dizem?
— Conformam-se. Segundo deduzo, estavam vivendo com tanta rejeição dentro de casa, que, quando encontram outros doentes com quem conviverem, melhoram na auto-estima...
Pelo menos, connosco, não se sentem humilhados ou vivendo de favor.
— Não fosse o Espiritismo, eu não entenderia...
— Nem eu, Doutor, apesar, confesso, da pouca leitura que tenho.
O senhor sabe, eu fui criada no Catolicismo, mas nenhum padre vai ao meu Hospital e nem nos auxilia com nada, a não ser o Padre Sebastião Carmelita...
— Aquele usa batina, mas não é bem padre...
É o mais pobre deles; eu até já lhe arranjei algum dinheiro...
— Quando ele nos visita, Doutor Inácio, nunca nos deixa de mãos vazias; sempre nos leva alguma coisinha, brinca com as crianças, conversa com os doentes...
Só que ele chega meio escondido.
O senhor sabe que a Igreja também nos combate, não é?
— É porque, além de ser negra, a senhora é auxiliada por Chico Xavier...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 04, 2018 10:01 am

— Tem razão, o preconceito ainda é muito grande.
Um dia, fiquei tão aborrecida, que pensei em abandonar tudo...
O Chico esteve lá em casa e me disse:
— “Aparecida, por enquanto os seus inimigos estão apenas pela sua frente.
Você sabe quais são e pode identificá-los, mas, se você deixar o serviço, eles surgirão de todos os lados...”
Após o coveiro ter lançado a última pá de terra sobre o ataúde de Marta Maria, depositei sobre a sua sepultura algumas flores que eu mesmo colhera no jardim do Sanatório.
Tarefa cumprida, antes de voltar para casa, deixei nossa irmã D. Aparecida à porta da benemérita instituição que fundara e dirigia.
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 04, 2018 10:01 am

23º Capítulo - Marta Maria Rediviva
O caso de Marta Maria me ensejara muitas reflexões.
Nem todo espírito, mesmo quando liberto do corpo físico, tem completo acesso às lembranças de vidas anteriores e, sobretudo, não forma uma ideia precisa das provas que o esperam na Terra, quando se decide por uma nova existência.
Se a maioria soubesse, com detalhes, as dificuldades do próprio carma, com certeza recuaria e não se encorajaria à reencarnação, disposta a arcar com as consequências da semeadura efectuada.
Imaginemos se aquela jovem tivesse plena consciência dais lutas que a aguardavam: a orfandade, o abandono do pai, a moléstia insidiosa, a discriminação, o assédio obsessivo da entidade que não lhe perdoara...
Conversando com D. Modesta a respeito, ela me esclareceu:
— Inácio, os espíritos, na maioria, quando desencarnam, sofrem apenas com a consequência das acções recentes que perpetraram, ou seja, com aquelas atitudes que motivam a sua infelicidade actual; se não temos cérebro para a total reminiscência do que fomos e do que fizemos outrora, no curso de nossas vidas que já se foram, como haveríamos de conviver com o peso absoluto de nossas culpas?
Arrasados pelo remorso, sequer teríamos forças para nos levantar do chão e ensaiar um único passo adiante...
E para o espírito obsessor, como funciona? questionei, desejoso de ampliar conhecimentos.
— Os nossos Benfeitores Espirituais - respondeu-me a inspirada medianeira têm me explicado que, para os espíritos que não logram perdoar, liberando-se de qualquer sentimento de mágoa, o tempo, simbolicamente, não passa...
Desencarnados existem que permanecem, por séculos, presos ao ressentimento ou ao anseio de vingança, indiferentes aos convites de renovação a que a Vida os exorta com frequência.
O livre-arbítrio de cada um é respeitado; o espírito mais evoluído, porque tenha chegado aonde chegou, não tem o direito de coagir os retardatários.
A escravização, em todos os sentidos, é antinatural.
Somos inteiramente livres para amar e para odiar, para semear e para colher.
A rigor, ninguém carece de clamar por justiça, porquanto o infractor da Lei é candidato potencial ao devido reajuste.
Toda reacção começa no instante exacto da mais insignificante acção.
— Então, não haveria situações que tendessem a se perpetuar no tempo? interroguei.
Espíritos tão recalcitrantes para os quais o Mal passasse a ser um estado natural?...
—Apenas se a Vida fosse destituída de pedagogia...
Em outras palavras, a dor não poupa ninguém e, se até a pedra bruta se transforma à acção lapidária do tempo, nós, criaturas evidentemente mais maleáveis, igualmente nos sentimos compelidos a mudar.
Quando nos observamos sozinhos em nossos propósitos menos dignos, às vezes descemos tão profundamente no abismo do desencanto, que, naturalmente, nos predispomos a ser diferentes do que temos sido, e basta-nos o mais leve aceno para que a Vida nos favoreça com as oportunidades indispensáveis à própria mudança.
Pausando com naturalidade, D. Modesta continuou:
—Analisemos, ainda, a situação que envolveu Marta Maria no episódio do qual participamos como meros figurantes.
Em essência, nada fizemos nem eu, nem você.
A rapidez com que o problema foi parcialmente solucionado é apenas aparente.
Ambos vinham sofrendo há muito e os seus espíritos se maturando no clima hostil da aversão...
Pudemos intervir no momento certo.
Nada além disto.
As coisas não acontecem como que por encanto.
A semente, por vezes, permanece indefinidamente sobre o monturo, esperando clima propício para germinar; quando as forças da Natureza se conjugam e a favorecem, ela então eclode...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 04, 2018 10:01 am

Connosco também é assim.
A nossa existência o nosso aproveitamento na encarnação depende de uma série de factores e circunstâncias.
Todos estamos expostos à chamada influência do meio.
As grandes realizações, sem dúvida, dependem dos grandes homens, mas também das grandes oportunidades assim como existe clima que facilita a germinação da semente, existe ambiente espiritual mais ou menos propício à realização de determinadas tarefas.
Dizem os Espíritos Superiores que a missão de Allan Kardec foi antecedida por notável progresso cultural da Humanidade, com o predomínio dos valores éticos que, até então, jaziam sufocados pela Idade Média.
Quando novos ventos começaram a soprar na civilização ventos de liberdade de pensar e, consequentemente, de crença os Espíritos Superiores redescobriram os médiuns que, durante séculos, quase foram dizimados nas fogueiras da Santa Inquisição.
Ante o meu atencioso silêncio, a companheira rematou:
—Vejamos que a Verdade jamais desaparece; as nuvens espessas da intolerância podem eclipsá-la momentaneamente em seu esplendor, todavia, quando o tempo se encarrega de desfazê-las, observamos que o seu brilho permanece inalterável...
Não há nada que fique sem vir à tona.
Um dia, as escavações geológicas haverão de reconstruir a história do orbe terrestre em seus menores capítulos.
Tudo tem memória, e as nossas mais insignificantes atitudes se registram no livro da Evolução.
Aqueles diálogos que, de quando em quando, me eram dado manter com D. Modesta, sempre trazendo a palavra dos nossos Instrutores, costumavam me esclarecer mais que todas as leituras que eu pudesse efectuar.
Instantes inesquecíveis e preciosos que me infundiam maior fé no espírito e aumentavam a minha reverência pelo Espiritismo, que, sem dúvida, ampliava os horizontes, em meus esforços para compreender a Vida.
Haviam já se passado quase sete meses desde a desencarnação de Marta Maria e eu não me esquecera daquela jovem extremamente resignada, com quem, é verdade, convivera tão pouco, mas que aprendera a estimar; os seus exemplos de resignação me sensibilizaram de tal maneira, que eu desejava deles me lembrar, quando soasse o instante do meu próprio desenlace do corpo de carne...
Guardando-os em minha retina espiritual, eu não poderia dar vexame, quando o anjo da morte estendesse sobre mim as suas escuras e pesadas asas.
Certa noite de quarta-feira, sem que o meu pensamento nela se fixasse, absorvido que estava com tantas preocupações no Sanatório, o espírito de Marta Maria induziu D. Modesta ao transe e deu-nos a alegria de sua presença.
— “Doutor, sou eu começou a falar...
Agora, estou mais para Maria do que para Marta...
Lembra-se? Venho apenas para agradecer a bondade com que me trataram; o carinho de vocês me fez, de novo, acreditar na excelência do Amor...
Recuperei-me.
Aos poucos, estou tentando me reaproximar daquele a quem feri tão insensatamente no passado.
Sinto-me responsável por tudo e não me animo a efectuar a menor queixa.
Eu não soube corresponder ao afecto de que era objecto e traí a confiança de quem me amava com loucura.
A vítima não é tão vítima assim...
Não existe perseguição gratuita.
A aversão daqueles que não humilhamos e não preterimos não é duradoura.
Os que nos combatem por interesses transitórios, ao se sentirem atraídos por outros interesses, logo nos deixam.
O ódio mais acirrado, por incrível que pareça, nasce do coração...
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Re: Por amor ao ideal - Inácio Ferreira /Carlos A. Baccelli

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 04, 2018 10:02 am

— Você ainda não pode estar com o seu amado de outras eras? - perguntei.
— Ainda não me foi possível semelhante bênção respondeu, explicando, m Precisarei
reconquistá-lo.
Por enquanto, a animosidade que nutria por mim se desactivou, mas isto não é suficiente; ele não está em condições de uma transformação tão radical, ao ponto de me amar como outrora...
Mentalmente, ele tem me recusado a presença; não me quer mais para o ódio, no entanto nem mais para o amor...
Está apático e indiferente.
- E o seu filho?
Vocês se reencontraram?
— Sim, é um espírito lindo, Doutor!
Sinceramente, não sei explicar o motivo de ter nascido de mim naquelas circunstâncias, fruto de uma paixão que desencadeou tantos tormentos!...
É o remédio, minha filha, ao lado da dor...
Isto prova que, em nossos maiores equívocos, não estamos irremediavelmente condenados; do próprio abismo em que nos arrojamos, Deus suscita invisíveis mãos que se predispõem a nos resgatar a alma...
— Como uma flor que, imaculada, cresce no meio do pântano, não é?
— Os anjos, minha filha, ao contrário do que se pensa, não foram feitos para o Céu...
A função do Sol é iluminar a escuridão.
Quem sobe, sobe para aprender a descer sem comprometimento.
Como viveríamos tranquilos nas Regiões Superiores, sabendo que, sob os nossos pés, choram os que sofrem na retaguarda?
— Estou convicta, Doutor, de que, em qualquer ofensa, ofendido e ofensor têm muito que perdoar-se e, não raro, o ofendido tem mais ainda; a ofensa é uma reacção negativa que, na maioria das vezes, o ofendido desencadeia no ofensor... Difícil saber quem é o algoz; ambos são vítimas de si mesmos.
— Percebo, Marta Maria, que você efectuou muitos progressos na Vida Maior...
— O sofrimento, sem qualquer pretensão, nos ensina muita coisa...
A dor é um livro constantemente aberto diante dos nossos olhos; quando nos recusamos a lê-lo no quotidiano, as suas páginas vão se acumulando, até que, de repente, somos obrigados a decorá-lo na véspera, à semelhança do aluno que será chamado a exame no dia seguinte.
Conversamos durante mais alguns minutos e, ao se despedir, a jovem, emocionando-se às lágrimas, disse, finalizando:
— É possível, Doutor, que eu não possa vir mais a esta casa...
Terei muito trabalho.
Não sei quando, mas, desde agora, começarei a traçar planos para uma nova vida no corpo, ao lado daquele que tanto magoei.
Será difícil, mas não teremos alternativa.
Pelo menos, segundo creio, nos será dado renascer em melhores condições:
a culpa nos predispõe ao remorso, e o remorso não nos confere o direito de reivindicar coisa alguma.
Necessitaremos nos convencer de que, doravante, tudo para nós dois será lucro. Adeus!...
No silêncio que se fez, fiquei a imaginar a grande incógnita que se oculta por detrás de cada drama humano e que, sem o conhecimento da Reencarnação, jamais encontraria resposta.
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